sexta-feira, 3 de julho de 2009

Primeiro ouço um tiro alto, que ensurdeceu meus brandos ouvidos. Segundo sinto uma facada pelas costas, um verdadeiro ato de covardia (há quem diga que foi um ato de coragem). Terceiro mastigo o gosto de terra e de sangue, que me fez a morte prematura. Ainda tive tempo de pensar: "Morrer primeiro, morrer segundo, morrer terceiro..." Foi quando sem mais nem mais, apareceu um soldado sem braço, sem rosto. Um tiro. A morte. "Agora sim estou morto" Pensei eu, em voz baixa. Ora, já nem havia voz alta, eu era um cadaver. Dando uma rápida volta pelo campo de guerra, podemos enxergar qualquer aroma de terror (Aroma se enxerga, não se sente). Eu não via e não sentia. Apenas ouvia. É isso que os mortos fazem. E pude ouvir gritos, gemidos, e pedidos de socorro. E o socorro de muita gente era pedir a morte, mas ela estava de férias. Ouvia também a gargalhada oca do sangue, que aos poucos dava uma nova textura as paredes da cidade. E que saudade de quando o que eu ouvia era o "tam tam tam" de uma velha gaita ao invés do "papapa" dessas novas metralhadoras. O amor existe, mas bem longe daqui.

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