Corri lentamente cada degrau daquela velha escada. A tal escada que me rachara a cabeça quando eu era apenas uma criança, e sabia tudo sobre a vida. Sabia porque os dedos murcham quando me banho. Sabia também contar as coisas mais absurdas, para mim era perfeitamente fácil saber quanto dava quarenta bilhões vezes infinito. Muitas coisas eu sabia. Porque a lua é branca. Porque o tempo corre. Porque eu me desenho. E porque o sol os colore. Sim, tudo sabia eu. Porque a gente morre. Do que é feita a neve. E do que é feita a nuvem. O que é cativar? Sabia eu. Sabia conversar com a lua, e as vezes a beijar. Sabia dançar com o vento, e as vezes o trair. Sabia abraçar as arvores, e as vezes não aparecer. E sabia girar na chuva, depois que ela me encontrasse no meu mais seguro esconderijo: o mundo de sofia. Foi tudo o que consegui pensar enquanto subia aquela enorme escada. Cada vez fui subindo mais rápido, como se pudesse voar. E no último degrau, enfim, voei. Voei até minha idade, caduca. Peguei-a nas mãos e precisei fazer malabarismo para que não me escapasse por entre os dedos. Decidi ali, nunca mais ter idade alguma. Não crescer, não envelhecer, e não nascer. Decidi saber tudo que eu soubera há anos atrás, quando sabia da vida ver o que mais belo me agrada. Atirei-a céu abaixo, sem pena e nem raiva. Ela entendera que eu queria apenas não precisar de ninguém além do céu, do sol, da chuva, das flores, das cores e da vida. Entendera ela naquele momento, como todas as pessoas não, que eu queria era apenas viver, e não como tantos outros, apenas existir.
Já olhou o céu hoje?
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Andava eu dançando pela rua, isso segundo pessoas que me viam caminhando. Ou dançando, segundo eles. Era como se eu soubesse da tal dança, era como uma valsa em meus pés. Havia eu, apenas, e o silêncio. Talvez o som da minha respiração. Ou talvez o cheiro dela. Olhava para o chão, atento, como se ele fosse sumir, ou quem sabe cair ao espaço a qualquer momento. Com coragem olhei para o céu, para o sol, que a essas horas não mais estava lá. Vi estrelas, olhando-me com seus rostos brancos como os braços da minha pequena, que gigante era no coração, passado. Soube logo que ela estava ali, sim, eu sabia. Não a achei, e quase cansei. Se não fosse pela arvore que me escondia à sete chaves tudo que eu queria ver, ou tocar. A cada passo me esquivando da arvore ela foi invadindo meus olhos, como um branco na imensidão que meus olhos descobriam. Foi alí que pude ter certeza: branco também é uma cor. E das mais belas por sinal. Era a lua, tranquila como o vento assobiando melodias ao meu redor. Joguei a ela o mais bonito dos diálogos, percebendo sua tristeza por estar só. Era culpa das estrelas, que dias me agradam tanto e outros dias me decepcionam profundamente. Entre tropeços quase que impercebíveis e conversas de bebâdos de botequim à beira de estranha, eu ia para casa. Feliz por tê-la encontrado, e triste por vê-la ir embora. Eu estava tão próximo dela, mas tão próximo naquele dia, que me tornei a pessoa mais distante dela.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Vesti-me com a minha melhor roupa. Era um terno laranja, com detalhes em vermelho. Tranquei a porta e me fui pelas ruas, que eu passaria pela ultima vez. Também me despedi de umas pessoas que eram grandes e estranhas. Tirei do bolso um pequeno príncipe, em um pequeno livro. Rua adentro eu fui o devorando. Folha a folha eu fui me despedindo. Esquina a esquina eu fui me aproximando. Comecei a sentir o seu cheiro. Era incrível; indescritível. Foi quando então me dei por conta. Só podia ser ela, claro. Com sua melhor roupa, vestida de cetim. Com um gosto estranho em mãos, me encontrou. Me foi gentil. E me foi grata. Por lembrar que havia eu, feito um canto a ela. Um canto para minha morte.
domingo, 2 de agosto de 2009
Uma mão delicada tocou minhas costas. Era quase dia, com o céu ainda escuro. Disse-me tantas e tantas coisas, e não usou uma palavra sequer. Ouvi o silêncio, apenas. E o som tranquilo de seus passos. Tampando meus olhos havia um mar. Era como se estivessemos em uma xícara de café. O mesmo café preto que me fazia companhia nos sábados em que eu não conseguia me fazer radiante, então cantava. E tampando minha nuca havia alguém. Talvez fosse delicada, talvez não. Horas depois de o tempo ter parado, eu senti meu cabelo espalhafatoso dobrar. "Era um presente dentro de uma caixa natalina" pensei por hora. Mas não, era apenas uma boina francesa. As cores me arderam os olhos, pois elas não haviam. Era preta. Isso que nem cheguei a observá-las. Foi quando além dos olhos, me senti incomodado por outro fato: a boina estava escorregando. Iria manchar as suas cores tristes com café. Levei minhas mãos como uma longa viagem até a tal boina, e pronto, arrumei-a. Ventando ao meus ouvidos ouvi umas poucas sílabas que diziam: "Não. Deixe. É assim!". Pousei minhas mãos sobre o vento, com a mesma sensação de queda. Não levaram muitos minutos até que me acostumasse. Quando finalmente decidi olhar pra trás, nada havia. Havia, claro. Mas como em um sonho, não mais havia.
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