quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Hoje eu quis ver Alice. Sim, eu quis ver Alice! As cenouras cresciam quase nuas, e tão cruas de doer. Não havia cheiro nem tempo; alaranjava-se. Tudo se congelava, no nascer de ver Alice. Adormeci quando sentia um cheiro, era o cheiro de Alice! Minha gravata borboleta me levou dali ao sonho, e do sonho ao tombo; de gente derrubou-me no chão. Dei um pulo e no escuro a lua ouviu. A caixa de correio corria de mim como sempre, e de leve eu roubei-a. Para mim haviam cartas, gastas de tanto me esconder. Oh não, eram de Alice. Procurei em tudo achar, mas não achei nem o que quis procurar. Nem a mim eu pude encontrar. Alice assim se foi, sem dizer quem é. Agradeço Alice, por vir de vento ver-me velejar no barco azul sem cor.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Fui visitar aquele velho porão. A cada degrau quebrado em meu sapato eu sentia a poeira engolir minhas narinas. Era tudo cinza. Não haviam cores; ou melhor, apenas uma: o próprio cinza. Meus passos eram tortos, como os de um palhaço. Tropeçava e caía, e isso se fazia rotina naquela noite. Até que tropecei em mim mesmo, e pude ver-me por dentro. A falta de cores me cheirava à chuva quando borra as cores do meu cabelo. Ou quando apaga os meus olhos. Não havia sol por ali. Se houvesse, o sol iria colorir as janelas brancas. Não havia gente por ali, elas tinham medo de cair. Nem havia passarinhos, eles passarão com o medo de voar. Mas havia uma flor. Dentre as ruínas havia uma flor. Por mim colorirá à tudo, sendo flor. O que era ela? A poesia que faltava colorir.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Você me esqueceu? Sim. Porque? Eu não vou dizer. Você não deveria! Não deveria mesmo! Eu sei. Então porque fez isso comigo? Eu estou tão triste agora. Porque eu não sei me controlar; e porque o meu segundo maior dom, é de deixar pessoas tristes. E se eu te cativar? Quem disse que não cativou? Você já deixou a lua triste? A lua não precisa de mim. O que tem na caixa amarela? Musas. Você existe? Eu sinto que sim. Dói? As vezes eu acho que estou morta, não dói tanto assim. Eu não disse que dói tanto; vamos dançar? Não, a gente não pode dançar agora. E porque não? Porque não. Eu preciso ouvir uma música que me faça chorar. Por isso está ouvindo olhos claros? Eu quero morrer. Eu não. Não parece ter tanta graça assim; dizem que no céu tudo é perfeito. Porque a solidão é a melhor companhia? Você já viu o vento por dentro? Não, eu tive pressa. Acabou? Não! Sim! Não! Morremos? Não, só pulamos e não caímos no chão. A tua música me fez chorar...
domingo, 25 de outubro de 2009
Da árvore que nasce do teto brota música. O violino vira vento, quando em mim o vento voa. Tudo cabe na palma da mão; em nós: num palmo do coração. Dobro suave apenas mais uma vez e guardo no bolso, seu moço. Levo nas botas umas esfarrapadas desculpas, e nos meus olhos esfarrapados minhas conversas de botas batidas. Tropeço no céu, toda noite; "abrigo! abrigo!". Eu chamo, tenho a voz roída; roída de tanto chamar. Tiro do bolso o troco do meu poema e arremesso com toda força na janela da moça, que quebra. Se não quebrar por hoje, seu moço, quebro eu; e quebrado invento uma canção com meu coração pra dar à ela, e guardá-la no fundo do meu violão.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Pára espelho, pára! Abro a boca e ele me abre a cuca. Fecho o olho e vejo-me dentro, bem de perto. Saio correndo pelo avesso do meu mundo até o meu mudo gritar. Sai de mim um ser fantoche, tem no olho dois pontos de interrogação. Vê o rádio na varanda musicar; vira dança de ciranda. Corre agora ao avesso de si mesmo, e vê novamente o espelho. (Espanto!). Oh Céus, eu sou um desenho no espelho, sem papel, parede, lápis ou pincel. Sem autor ou dor; de cor viro razão. Eu sou um velho caduco, e agora sou vilão. Pulo prédios da altura dos meus ombros e desmancho no colchão; são as nuvens demanhã. Ah, e de noite é o chão. Não desmancho mais no chão, viro folha de papel e depois viro chapéu. Capitão agora fui, meu chapéu é de dar medo, ele então é de papelão. Tudo isso sou agora, amanhã eu não sou mais; amanhã eu nem sou eu.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
O palhaço da fila da frente corre atrás da menina descolorida. Ele imita até o seu olhar descalço de pé de pano verde; de tão verde: vermelho. Ou qualquer cor que corra, e que corra, corra do palhaço. Um suor alegre desmente seu rosto branco, quase branco de comer o que não se tem. De viver de papel de pão, anotando quantos rostos matarão a dor de rir. E quantos outros matarão o seu palhaço, também, de tanto chorar.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
O jardim, naquela doce manhã, era feito apenas de caretas. As bocas eram tortas, de morango com os olhos. E os olhos eram feios; como a boca feito torta. A moça do jornal me dizia: não desista de seus olhos. E os faróis estavam vazios, como o dente do duende que havia dentro de mim. Havia dentro do pacote, quase fechado, os presentes quase antigos. Guardados há anos, ainda eram presentes, eles não haviam sido abertos. Havia cartas e dizeres; tudo enrolado como enrolado estava em mim. No retrato havia eu e nos cordões havia nós. No fim, a janela se virou; e de dentro eu me vi: sozinho no jardim, nas caretas das crianças.
domingo, 18 de outubro de 2009
Café da manhã calado, ela tomava e cantava entre as mechas de cabelo mais delicados de seu chapéu de cores. Viajava... Viajava toda noite para sempre ter que voltar; não seria fugir. Nunca deixando de cantar o café, e na fé deitar. Era correndo que brilhava, e quem olhava não entendia. As coisas que realmente importam não são para entender. E mais uma vez cantava, encantava à todos, o mundo quem sabe louco. Vez por outra tambem ela sumia, tinha de si sua própria companhia, além é claro do seu delicioso chá de sumiço. Sumindo de mim com sumiço ela pensava sumir; de mim sumir. E de compor lá está ela, como sempre estará ao meu ver compor.
sábado, 17 de outubro de 2009
Agora eu era a coruja que no choro de mim mesmo observava os carros quase que voadores. Os carros de madeira nas curvas de mim moça. E no cheiro de chuva de mim gasto. Sentado o dia inteiro, não pode ser em chuva? Quanta besteira sai por aí de boca em boca. O medo de chuva eu perdi com a sacola do amor. Era madrugada, e na caixa do correio eu me via novamente, agora eu era apenas o frio. Era nas bocas não as besteiras das mocinhas da cidade. Era de boca em boca que chegava à roma, lá no amor de trás pra frente; quase. Lá no meu nome, que não tinha fim. E nas minhas anotações, onde nada tinha fim. Nem mesmo as minhas fábulas ao contrário. Ao contrário de mim mesmo.
sábado, 3 de outubro de 2009
O senhor Pestana era um velhinho simpático, e para muitos sabia como viver. Ele vivia em três lugares muito pacatos e diferentes: no livro, no violão e no pensamento. Sempre quando ele se encontrava no pensamento, tinha o hábito de sair pela rua perguntando a todos como se deve viver. Mas o que as pessoas queriam ouvir era sobre trabalho e dinheiro. Isso deixava Seu Pestana muito triste. Um dia radiante em que Pestana estava passeando pelo violão ele encontrou o Sol e começou rapidamente seu diálogo caduco: "Como devemos viver? Uma vez eu brindei um belo vinho com Epicuro e ele me disse que eu não devia me apegar às coisas e nem ter medo da morte; a morte não está, ou está e eu não. Ele me contou tambem sobre o cálculo do prazer, o cálculo para maximizar o bem-estar da vida. Já Diógenes me era um estranho. Ele não tinha desejo algum e escolhia sempre pela absoluta pobreza". O Sol escutou tudo atentamente, como se um dia isso lhe fosse importante como tudo que já ouvira antes. Pestana, o mais secreto de mim mesmo; de quem escreve esse texto. Tantas pergutas e poucas respostas. O que penso já me é segredo, e Pestana é apenas mais um deles. Sempre que Pestana me pergunta "Como devemos viver? Quem és tu?", eu lhe digo: "Que seja um que pense, meu caro Pestana; como tu".
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