segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Era fim de ano, e a casa continuava como sempre: cada vez mais deserta. Nem por mapa a achavam, nem por nada. Hora ela estava no seu peito, quase em vez do coração; e hora ela estava nas estrelas, onde sempre estará. O portão era a porta, e o porta-retrato ao mesmo tempo, onde tudo começava. As escadas teimavam em fugir dos pés, e o relógio em correr para trás. Todos tropeçavam no céu e nunca ninguém tentara entrar ali antes. Foi envão, até que alguém ousou me invadir o tal segredo. Me pegou de surpresa, quase virando uma arvore de plastico. Os braços, por falta de abraços, viravam galhos. E os olhos, tão cheios de vazio, viravam cores. A casa teimava agora em tranca-la ali, seja lá onde for: na lua, na rua, nas estrelas, no verso ou num cantinho qualquer do fundo de um violão. (Há quem troque violão por coração)
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Abria-se o bazar, era domingo. E o azar era o mais procurado. Seres verdes preferiam sorrisos. Os azuis preferiam poemas. E os sem cores, ao ser um ser, preferiam o bem-me-quer. Eramos um par, um belo par de ímpar. Eu te guardava no bolso; no verso do verso de um verso que escrevia enquanto o tempo não passava. Fui me fazendo personagem, até errar os olhos e acertar a queda. Me escondi no fundo do baú cheio de vento, e me cortava toda e qualquer fala. Fui falando à mim mesmo e pensando ser um ser. Ouvi-me: todo ser humano pode ser humano. E fui; mas um ser verde, laranja e vermelho. E de tanto ser, um ser sem cor nenhuma. Fechava-se o bazar, e mal-me-quer tão só seria. Segredo...
sábado, 14 de novembro de 2009
Hoje tenho reza em vias retas, prego a peça em prece santa. Azul, vermelho. Em dó ré mi fá sol lápis de cor. Colorir meus sapatos para caminhar sem cinza ser, um ser cinzento. E desenhar, fazer castelos e dar-te no ar. Construções quebradas no porão, noite adentro vendo o vento dançar, fazer-me ninar. Demanhã viajar na astronave, que madruguei à fazer. Ela coube em uma folha, se chamava Lilás e cheirava Chocolate II; o I eu pensara quando era recém-nascido. Meio-dia estou de volta, trago arvores que têm no braço um abraço torto. Guardo a astronave, que agora era verde misturada ao vento azul. Era tudo branco, uma bela cor triste. Mas ter dó ré mi fá sol lápis de cor, deixou a folha como quis: feliz. Onde não tem cor, ter-te, é ter a cor que cor nenhuma de cór pode pintar. É colorido ficar; com arvores, não cinza e aberto: só ter você, mesmo que só.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
O vendedor de laranja corria do homem azul que tinha os olhos verdes, o doutor curava à todos mas não conseguia curar a si próprio; o palhaço era triste, e ao fim do dia limpava o rosto com as lágrimas, enquanto o circo fechava as portas às 30:00 horas do jantar, como de esperado. E lá dormiam; se deitavam sobre o chão ou o céu de pó sem sol. Sobre o livro dormia um leão, que era pra ladrão nenhum descobrir os seus segredos, que nem mesmo ele sabia. Já o velho sábio acabara de nascer, pensando ser um violão; que de fato era. Como era transparente e de cor à imaginar, e como era também seu próprio melhor amigo. Apenas um desenho; e assim, sabia muito mais do que existir.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Eram 23:23 no relógio; quase 24. Na casa azul dos passarinhos o tempo não existia, nem na casa azul do meu caderno. Nem existia casa, e nem azul; e o caderno? Não existia barco, mar e nem café. No meu nariz agora 23:28; quase 27 ao fim. Nas esquinas haviam olhos, a me arregalar e a pepitar. Não haviam mais esquinas, apenas a esquina Hollanda do Seu Buarque. Doce chocolate doce, alegrava a boca à boca ao beijo. Dois estranhos trocando de ser, de ser, de ser e não ser humano. De ser um anjo, irmã, e ser um tanto de tanto amar. Virei cartola ao mascarado, e do mágico ao giz pra te achar. Nem no mundo, nem no fundo do fundo desse mundo. De tanto e de tanto amar agora 23:38 são, só, santo pé do chão. Hora agora de correr, de dormir e de cair da cama até o céu. E do céu sonhar que vai passar, como passou você, e como passará se eu sonhar.
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