sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O rádio teimava em ligar, e mal me sabia porque. As vozes eram colecionadas uma por uma, em ordem não alfabética, no fundo da minha memória. Até que a voz mais parecida com um caramelo de rara doçura, me acertou de jeito, no peito; e me fez sorrir. Dizia, quase gritando: "E se o mundo acabasse amanhã?". Não. Não quis responder. Me deixei virar noite, enrolei-me na cortina e te fui a roubar. Quis te colocar no bolso, mas o coração era mais seguro, e me segurava pelas mãos. Te fiz quase promessas, e vendei teus olhos à cor do mar, ao ver de nuvens; mas se misturavam em cores mesmas e me abraçavam - teus abraços aos braços meus - fechavam-se em flor. Abri o céu, plantei a lua, limpei as nuvens, e desenhei então à ti algodão doce. Derreti minhas mãos geladas ao teu ser quente, e de mãos dadas te abri o céu, e o azul dos teus olhinhos. Deitaram-se, nós, ao nada; onde só haviamos e pouco mais que isso. Agora... acabe hoje, amanhã. Acabe mundo, acabe! Até o fim seremos nós, nós dois e o resto do mundo.