terça-feira, 8 de junho de 2010

Hoje me lembrei de você. E me bateu uma saudade gigante. Do tamanho do meu coração de retalhos. Ele é maior do que o planeta agua. É como se fosse agua em pó. E eu quis te ver. Te notar. E te anotar em mim. Sou uma folha em branco em processo de composição. Lá existem poesias, musicas, desenhos e silêncio. Além de você, é claro.



Carta feita pelo menino poeta à menina de pele branca, lábios de morango e flores no sorriso.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A barba crescia por entre o jardim de poesias daquele velho senhor. O varal de corda presa, soltava-se do espaço para secar cada música avoada pelo ar. As poesias lhe saiam pela manhã, e brotavam ao longo do dia, sem parar para apontar o lápis do pensamento. As borboletas levavam nas asas todos os poemas escritos pelo poeta de barbas compridas. Quando de noite dormiam, os seres que se chamam crianças, as borboletas entravam pela chaminé do desenho mais colorido do lar doce que adormeciam, e colocavam as poesias em ordem aleatória em cada sorriso guardado debaixo do travesseiro.
Quando acordavam, os pequenos seres transparentes, sentiam que podiam voar se quisessem. Anos passavam, dentes caiam, cores derretiam, olhos escorriam, sentidos morriam, e a doce criança do sorriso encantado, já era um adulto sem cor, sorriso ou um pingo de felicidade. E tudo por causa do tal poema. O tal poema que está em cada detalhe de nossos dias. Em cada folha, em cada som, em cada silêncio. Em cada cor, em cada dor, em cada pôr. Em cada sol, em cada fá, em cada lápis de cor. O tal poema que existe por tudo que se olha, mas só os pequenos que sentem e percebem, conseguem ficar com ele para sempre nos olhos, até que morra. Mas sem ter precisado crescer um dia.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

- A orquestra está desafinada.
- Não, não está.
- E os erros?
- São erros.
- Então está desafinada, e ponto.
- Erros são indesejáveis pra você?
- É claro, odeio erros, sou um erro.
- Os erros são incriveis!
- E porque?
- Se não fossem os erros, nada existira... nem a valsa.
(Silêncio)
- Nem você.
Encontraram-se no palco mais charmoso da cidade, que chovia como a previsão do dia passado que o menino fizera para a menina. Ela vestia-se de branco, para combinar com o céu choroso daquela tarde. Usava uma boina que se quadriculava ao seu cabelo escorrido pela chuva. Ele se vestia de verde, para combinar com o arvoredo que os cercavam cantando. E usava uma touca que se listrava pelo frio. Logo trocaram os olhares e ele carregou a menina por inteiro, dos olhinhos à bolsa, enquanto ela corria pela chuva, e tocava o céu como nunca.
Entramos em um lugar colorido, onde provavelmente ela vivia à escrever. Havia uma coleção de vinis, uma coleção de livros e um diálogo de silêncio. Ela me retratava pensando, como só uma alma gêmea poderia fazer. Era o que dizia o velho poeta e sujo, já sumido desse mundo: "Só podemos sentir a alma de apenas uma pessoa no universo, e essa pessoa, então, é tua alma gêmea." Ele a sentia como alma, a via atravez de todas as máscaras que um ser incrivel pode ter. Eles sabiam a hora do silêncio, que não era constrangedor como o de dois humanos, mesmo durante um par de horas.
O medo de perdê-la consumia o menino por inteiro, de dentro para fora. E ela continuava sumindo. Navegando em mares de lágrimas. Foi então que ele decidiu desenhá-la para sempre em si mesmo. Fez dela a estrela mais bonita e a colou ao lado da lua. Ele a via dançar, recitar poesias e cantarolar sem palavras. Afinal, ela pode sumir, fugir ou esquecê-lo de si própria. Mas ele, ah, o menino, nunca esquecerá da sua alma gêmea.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Era um sonho. Principalmente para ele. Ele, que vivia disfarçado de pintor, se sentiu encantado pelos poemas exatos daquela menina com um par de mistérios, que nem ela mesmo podia explicar. Mas explicação não era o que queriam. Ele, descobrir. Ela, disfarçar. Enquanto a tal moça se invadia de poemas e pensamentos, ele, no lado, queria descobri-la por inteiro. Desvendá-la até a cuca. Passou noites mergulhado em café na busca de desvendar o mínimo detalhe, a cor do seu vestido aposentado, o número de listras vermelhas do quadro de sua parede ou o tom da sua voz que ele nunca escutou. A lua minguava e lá estava ele, matutando a cor dos seus olhos quando o sol os pegava de frente ou quando o pôr-do-sol os faziam brilhar. Ele passou então à ser procurar por inteiro, em cada canto dos infinitos cantos do universo. Ele era um mistério; um quebra-cabeça de criança, montado por um louco. Mas ainda assim o mistério maior era ela. Não tinha destino, nem regras, nem limites. Era época de invenção nos miolos do menino, e ele, sendo eu, construia passo à passo, um grande disco-voador de estrelas. Ele tentava todos os dias, com palvras, poesias e cantigas, convidá-la para uma viagem infinita. Sem pessoas, destino ou inicio. Mas com cor, poesia, cantigas de ninar, aquarelas, ballet, balões, valsa, silêncio e coração. Entrariam então no disco-voador iluminado, e iriam para um lugar jamais pisado, apenas tocado com os olhos: a lua. E para sempre. Enquanto isso, para sempre, ele tentaria desvendá-la por inteira; que na verdade, era o mistério mais confuso de mim mesmo.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Não muito longe de lugar nenhum, havia um homem tão misterioso quanto um par de estrelas. A cidade nascia por suas mãos, todas as manhãs, uma completamente diferente da outra. Hora era o cheiro, com sotaque palpitante de neblina caramelizada. E outrora suas cores, uma mistura de flores com astronautas. Caia nota por nota, sustenido ao ar, como escadas dançantes, aquele velho piano de teclas gastas de tanto não ser tocadas. O homem, antes de pintar-se à luz, caminhava pelo piano; dó, ré, milhares de vezes, até o som alimentar os seus olhos infinitos de nada.

- Você pode voar, e ter olhos infinitos.
- Eu tenho, meus olhos são infinitos.
- Mas são infinitos de nada.
- E isso não quer dizer infinito?
- Mas eles podem ser infinitos de tristeza.
- Prefiro tê-los infinito de nada.

Quando enfim essa aquarela descoloriu, o homem dos olhos fundos descobriu que deixando seus olhos infinitos de tristeza, era a unica maneira de ter sido feliz. E a unica maneira tambem, daquela bela aquarela; não ter um dia perdido a cor.

terça-feira, 20 de abril de 2010

No começo era só mais uma daquelas viagens sem volta. Sem inicio ou fim. Sem metade ou cara metade. Ela atravessou a rua como quem se atravessa ao peito, e some. Me parecia como sempre. Um abraço. Três palavras e meia. Olhos cor de nuvem. Um sorriso cativamente. E apartir dali navegaria de novo, nas lágrimas do meu próprio violão (coração). Ela me costurou ao seu braço e abraço. Me cobriu de vento, era tão frio. As estrelas choviam. Choviam até a lua minguar pela sua janela, e me deitar no coração.
Se eu pudesse daria o mundo à ela. Colocaria uma lua cheia, tão cheia de jeitos e maneiras. No fim do dia, quando ela fosse nascer, eu nasceria com ela à menina, no terraço mais alto de uma amizade. Em um arranha céu quase infinito. Eu cantaria, de meia lua, à encanta-la. Colocaria também uns quatro pares de nuvens borrifadas de lilás, bem atrás do seu coração (isso seria uma surpresa, é claro). Para o nascer do dia, levaria à sua cama um oceano de café, e dentro da xícara, um buquê colorido de rosas e tulipas. O sol deixará o céu avermelhado por todas as horas do dia, no meio-dia descolorirá. Ele irá se derreter como chocolate, e fará um arco-irís de cores, nas entrelinhas do pôr-do-sol.
Lembra do avião sem asa? Lembra do circo sem palhaço? E do Romeu sem Julieta? Eles podem se refazer aos poucos, podem sobreviver com malabares ou encenar outras peças da canção. Mas e eu? Eu viro parte da ponte que teme o vento lá dentro da noite, e sumo. É como se eu não tivesse nascido, nem em uma folha de papel. Sem identidade ou olhos. Guardaria em uma caixinha minha estrela cadente, minha flor, minha raposa, minha cidade ideal, minha prioridade, minha alegria e minha vida (que por sinal todas elas são você), e guardaria no céu do meu coração, deitaria, choraria um oceano, e dormiria para sempre, para sempre te lembrar.

Se eu te desse tudo o que você me faz, a tristeza viraria uma fada, e a fada... o amor!


Dedicado à Nicole Zimmer

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Ela guardava o beijo em uma garrafa de segredos, em gastos lenços de papel, por décadas e décadas. A escada encolhia-se para ela sentar-se, e com seu lápis de cortes, e sem cores unicas, dedilhar por todo lastro de papel às margens escrevendo-as. Era como uma dobra do seu coração, e a janela já não havia sol. O café passava-se às pressas, na correria de um trabalho azedo, como o azedume de um menino sem um conto feito e inventado por ela.
No caminho pra casa pé ante pedra, o vento destruia-lhe o cabelo, e com aquela doce expressão de raiva, deixava esparramar-se tudo ao chão: cadernos, folhas, olhos... Tudo de uma só vez, vez por vez. Tropeçava à cada passo que tirava os olhos do seu livro inacabado que lia à cada esquina daquela cidade silenciosa. (Era ela que escreveria o final em um dia que o frio não nascera). Ouvia-se apenas o ruidos do seu pensamento e o som dos jornais voando ao ar como boboletas feitas de letrinhas de jornais. Tudo era preto e branco. Era como uma época que não existira. Seu vestido rodava como valsas coloridas em meio à tanta antiguidade. Era listrado em olhos alheios dos apartamentos abandonados daquele domingo dominical, que parecia um eterno feriado lunar.
A lua já minguava levemente entre as nuvens carregadas de lágrimas, tudo misturava-se em torno da menina. Tudo em um só livro, em um só conto. Todos queriam participar dos seus vastos pensamentos.
Era quando chegava em casa, corria atrás de suas correspondencias em branco e subia as escadas, tropeçando como se elas andassem pra trás. Cansada deitava-se no sofá cor de vinho e dormia sonhando. Tudo era encantado. Era como as cores de um pirulito de rara doçura. As coisas acalmavam-se em seu coração, como o sono fazia todas as noites lunáticas.
A cada dia que passa o seu livro está sendo escrito. Se não no papel - que rabisca noite à dentro - nas estrelas, onde todos sempre poderão ler por entrelinhas as linhas que ela nunca escreveu.


Ler ouvindo August Rush - O Som do Coração - This Time (Texto dedicado à Zizi Coqueiro)

sábado, 30 de janeiro de 2010

Quando o passo é maior que a perna e a pressa é maior que o traço, o desenho quase não molda. Era palhaço, de nariz caindo ao chão. Céu voando avoado, bailarina à ler as nuvens sem céu. Era o conto da sua vida sem começo. Um vestido amarelo, um beijo de papelão, e um verso anotado à sete chaves no avesso do papel de pão. O artista voava ao quadro, deitava em cores e comprimia-se ao comprimido para a lua colorir. Foi adoecendo 3x4, um dia por vez, um dia por noite. Caçou canções e atirou no quadro, que já não tinha moldura. Ele existe e pode ser visto, mais não pode-se guardar. Nem no bolso de um poeta.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

As idéias foram me escapolindo uma à uma, quase sem rumo. O papel que era branco já descolirira, além do branco. Era um conflito de idéias, era como uma guerra de generais feitos de chocolate, em seus navios cor de sol. As manchas no papel iam se pondo aos poucos, como o sol de meia manhã. Nos depoimentos à mim mesmo, eu já me contradizia polidamente. Hora eu embarcava os amantes em um barco de papel e largava-os em um oceano sem fim, minha xícara de café. Outrora eu bordava flores em seus cabelos rasgados, e plantava-os em meu caderno. Enquanto o soneto perfeito não estiver pronto, tudo que eu escrever nele até o seu fim, será apenas mais uma linha qualquer. Mas de um soneto, um soneto quase perfeito.


Para ler ouvindo: Bright Eyes - A Perfect Sonnet

domingo, 24 de janeiro de 2010

- Pequena, coloque um ponto em todas as suas frases.
- Porque?
- Pra que elas voem, e não fujam à boca.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Ela não tinha passos, nem tinha pernas. Mas ele, aquele velho discreto e sábio tinha, tinha um par de passos a menos pernas à sobrar. Ela desenhava até a noite doer. E ele a escrever, até a noite cair. Era uma eterna brincadeira entre os dois seres, o dela distante, quase não existindo. E o dele à existir, mais do que nunca à desistir. Francisco nas barbas trocava de lápis, e nascia então Dona Joana, a Francesa, sempre à trocar de língua. O Caro Francisco levava no bolso o violão sem cordas, e seu chapéu de vento. De papel, estrelas e maças. A Rita então roubou-lhe de tudo, do sorriso ao assunto. Francisco nascia e morria ao se pôr mais uma composição à elas. E foi assim levando, Seu Chico, e ele a me levar. Nas linhas, entrelinhas e canções - tentava ele. A última, só mais uma, e depois poderia se pôr ao céu de graça e lua. Mas os pensamentos já andavam ao contrário. E quando ele me percebeu por perto, cedeu. Por seus olhos eu vi, e corri contar à ela:
- Agora eu sei. Eu sei quem é você!
- Quem?
- A canção que Francisco nunca conseguiu escrever.


Um breve relato à Chico Buarque de Holanda e Ela, a Pequena.

domingo, 10 de janeiro de 2010

- Eu tenho 8.000 borboletas.
- E porque você não gasta?
- Porque eu preciso guardar.
- Pra quê?
- Pra um dia eu te comprar o pôr-do-sol, pequena.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

- Você já quis morrer?
- Sim.
- E porque não morreu?
- Porque não estava chovendo.
- E porque precisa estar chovendo para morrer?
- Porque chovia tanto quando ela foi embora.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Tudo estava como sempre ao amanhecer do meu próprio mundo, que não era nada além da minha própria rua. O cheiro de café recém nascido. A fila do pão dobrando um par de quadras. As crianças ao redor da vila, como se conhecessem todo o mundo.
Eu observava tudo do fundo da minha janela. O sol invadia meu quarto aos poucos, em fatias. Enquanto isso eu descia a escada sentado, com as mãos sujas de vento e não dava "bom dia" a ninguém. Tudo me era tão estranho. Eu sentava a mesa, e comia migalhas de fome, para poder logo sair de tudo.
Então eu colocava meus sapatos e ia até a porta, onde meus pés e meus passos me esperavam ansiosos de fuga. Eu subia a minha rua de cabeça baixa, chutando as pedras de giz nas construções. Assovios. Som de violino. Previsões do tempo por velhinhos. Eu escutava de tudo por onde eu passava. Bati palmas até elas me arderem a pele, como de costume. Logo a porta se abria. Ela me olhava com um sorriso aliviado e corria até mim com um vestido de cores verdes, eu nunca vou me esquecer dele. Passavamos o dia correndo, à descobrir cores.
Tudo acabou quando ela me disse:
- Descobrimos tantas coisas não é? Que cair dói. Que doer sara. Que cantar espanta (seus males ou as pessoas). Que morrer nasce. Que girar voa. Que chover banha.
- É verdade.
- Mas eu tenho que ir, me desculpa.
- Porque? Porque você tem que ir?
- Porque você me fez descobrir tambem o que é amor.


Para ler ouvindo: Iron & Wine - Flightless Bird

sábado, 2 de janeiro de 2010

- Teus olhos estão verdes.
- Não, não estão.
- Como sabe?
- Eles são azuis, você não vê?
- Não, você vê?
- Eu sei.
- Como?
- Espelho..
- Ele te diz a verdade?
- Não, ele me mostra.
- Como tem tanta certeza?
- Eu vejo.
- E porque não acredita em mim?
- Porque não!
- Teus olhos estão verdes.
- Eu sei, você me disse.
- E agora acredita?
- Você não mentiria duas vezes.
- I can't take my eyes of you
- Porque?
- Porque o quê?
- Porque não consegue parar de me olhar? Porque meus olhos são verdes?
- Não. Porque eu sempre escolherei a cor que eles terão para mim.

Para ler ouvindo: Damien Rice - The Blower's Daughter