sábado, 30 de janeiro de 2010

Quando o passo é maior que a perna e a pressa é maior que o traço, o desenho quase não molda. Era palhaço, de nariz caindo ao chão. Céu voando avoado, bailarina à ler as nuvens sem céu. Era o conto da sua vida sem começo. Um vestido amarelo, um beijo de papelão, e um verso anotado à sete chaves no avesso do papel de pão. O artista voava ao quadro, deitava em cores e comprimia-se ao comprimido para a lua colorir. Foi adoecendo 3x4, um dia por vez, um dia por noite. Caçou canções e atirou no quadro, que já não tinha moldura. Ele existe e pode ser visto, mais não pode-se guardar. Nem no bolso de um poeta.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

As idéias foram me escapolindo uma à uma, quase sem rumo. O papel que era branco já descolirira, além do branco. Era um conflito de idéias, era como uma guerra de generais feitos de chocolate, em seus navios cor de sol. As manchas no papel iam se pondo aos poucos, como o sol de meia manhã. Nos depoimentos à mim mesmo, eu já me contradizia polidamente. Hora eu embarcava os amantes em um barco de papel e largava-os em um oceano sem fim, minha xícara de café. Outrora eu bordava flores em seus cabelos rasgados, e plantava-os em meu caderno. Enquanto o soneto perfeito não estiver pronto, tudo que eu escrever nele até o seu fim, será apenas mais uma linha qualquer. Mas de um soneto, um soneto quase perfeito.


Para ler ouvindo: Bright Eyes - A Perfect Sonnet

domingo, 24 de janeiro de 2010

- Pequena, coloque um ponto em todas as suas frases.
- Porque?
- Pra que elas voem, e não fujam à boca.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Ela não tinha passos, nem tinha pernas. Mas ele, aquele velho discreto e sábio tinha, tinha um par de passos a menos pernas à sobrar. Ela desenhava até a noite doer. E ele a escrever, até a noite cair. Era uma eterna brincadeira entre os dois seres, o dela distante, quase não existindo. E o dele à existir, mais do que nunca à desistir. Francisco nas barbas trocava de lápis, e nascia então Dona Joana, a Francesa, sempre à trocar de língua. O Caro Francisco levava no bolso o violão sem cordas, e seu chapéu de vento. De papel, estrelas e maças. A Rita então roubou-lhe de tudo, do sorriso ao assunto. Francisco nascia e morria ao se pôr mais uma composição à elas. E foi assim levando, Seu Chico, e ele a me levar. Nas linhas, entrelinhas e canções - tentava ele. A última, só mais uma, e depois poderia se pôr ao céu de graça e lua. Mas os pensamentos já andavam ao contrário. E quando ele me percebeu por perto, cedeu. Por seus olhos eu vi, e corri contar à ela:
- Agora eu sei. Eu sei quem é você!
- Quem?
- A canção que Francisco nunca conseguiu escrever.


Um breve relato à Chico Buarque de Holanda e Ela, a Pequena.

domingo, 10 de janeiro de 2010

- Eu tenho 8.000 borboletas.
- E porque você não gasta?
- Porque eu preciso guardar.
- Pra quê?
- Pra um dia eu te comprar o pôr-do-sol, pequena.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

- Você já quis morrer?
- Sim.
- E porque não morreu?
- Porque não estava chovendo.
- E porque precisa estar chovendo para morrer?
- Porque chovia tanto quando ela foi embora.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Tudo estava como sempre ao amanhecer do meu próprio mundo, que não era nada além da minha própria rua. O cheiro de café recém nascido. A fila do pão dobrando um par de quadras. As crianças ao redor da vila, como se conhecessem todo o mundo.
Eu observava tudo do fundo da minha janela. O sol invadia meu quarto aos poucos, em fatias. Enquanto isso eu descia a escada sentado, com as mãos sujas de vento e não dava "bom dia" a ninguém. Tudo me era tão estranho. Eu sentava a mesa, e comia migalhas de fome, para poder logo sair de tudo.
Então eu colocava meus sapatos e ia até a porta, onde meus pés e meus passos me esperavam ansiosos de fuga. Eu subia a minha rua de cabeça baixa, chutando as pedras de giz nas construções. Assovios. Som de violino. Previsões do tempo por velhinhos. Eu escutava de tudo por onde eu passava. Bati palmas até elas me arderem a pele, como de costume. Logo a porta se abria. Ela me olhava com um sorriso aliviado e corria até mim com um vestido de cores verdes, eu nunca vou me esquecer dele. Passavamos o dia correndo, à descobrir cores.
Tudo acabou quando ela me disse:
- Descobrimos tantas coisas não é? Que cair dói. Que doer sara. Que cantar espanta (seus males ou as pessoas). Que morrer nasce. Que girar voa. Que chover banha.
- É verdade.
- Mas eu tenho que ir, me desculpa.
- Porque? Porque você tem que ir?
- Porque você me fez descobrir tambem o que é amor.


Para ler ouvindo: Iron & Wine - Flightless Bird

sábado, 2 de janeiro de 2010

- Teus olhos estão verdes.
- Não, não estão.
- Como sabe?
- Eles são azuis, você não vê?
- Não, você vê?
- Eu sei.
- Como?
- Espelho..
- Ele te diz a verdade?
- Não, ele me mostra.
- Como tem tanta certeza?
- Eu vejo.
- E porque não acredita em mim?
- Porque não!
- Teus olhos estão verdes.
- Eu sei, você me disse.
- E agora acredita?
- Você não mentiria duas vezes.
- I can't take my eyes of you
- Porque?
- Porque o quê?
- Porque não consegue parar de me olhar? Porque meus olhos são verdes?
- Não. Porque eu sempre escolherei a cor que eles terão para mim.

Para ler ouvindo: Damien Rice - The Blower's Daughter