segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Ela guardava o beijo em uma garrafa de segredos, em gastos lenços de papel, por décadas e décadas. A escada encolhia-se para ela sentar-se, e com seu lápis de cortes, e sem cores unicas, dedilhar por todo lastro de papel às margens escrevendo-as. Era como uma dobra do seu coração, e a janela já não havia sol. O café passava-se às pressas, na correria de um trabalho azedo, como o azedume de um menino sem um conto feito e inventado por ela.
No caminho pra casa pé ante pedra, o vento destruia-lhe o cabelo, e com aquela doce expressão de raiva, deixava esparramar-se tudo ao chão: cadernos, folhas, olhos... Tudo de uma só vez, vez por vez. Tropeçava à cada passo que tirava os olhos do seu livro inacabado que lia à cada esquina daquela cidade silenciosa. (Era ela que escreveria o final em um dia que o frio não nascera). Ouvia-se apenas o ruidos do seu pensamento e o som dos jornais voando ao ar como boboletas feitas de letrinhas de jornais. Tudo era preto e branco. Era como uma época que não existira. Seu vestido rodava como valsas coloridas em meio à tanta antiguidade. Era listrado em olhos alheios dos apartamentos abandonados daquele domingo dominical, que parecia um eterno feriado lunar.
A lua já minguava levemente entre as nuvens carregadas de lágrimas, tudo misturava-se em torno da menina. Tudo em um só livro, em um só conto. Todos queriam participar dos seus vastos pensamentos.
Era quando chegava em casa, corria atrás de suas correspondencias em branco e subia as escadas, tropeçando como se elas andassem pra trás. Cansada deitava-se no sofá cor de vinho e dormia sonhando. Tudo era encantado. Era como as cores de um pirulito de rara doçura. As coisas acalmavam-se em seu coração, como o sono fazia todas as noites lunáticas.
A cada dia que passa o seu livro está sendo escrito. Se não no papel - que rabisca noite à dentro - nas estrelas, onde todos sempre poderão ler por entrelinhas as linhas que ela nunca escreveu.


Ler ouvindo August Rush - O Som do Coração - This Time (Texto dedicado à Zizi Coqueiro)