quinta-feira, 20 de maio de 2010

Não muito longe de lugar nenhum, havia um homem tão misterioso quanto um par de estrelas. A cidade nascia por suas mãos, todas as manhãs, uma completamente diferente da outra. Hora era o cheiro, com sotaque palpitante de neblina caramelizada. E outrora suas cores, uma mistura de flores com astronautas. Caia nota por nota, sustenido ao ar, como escadas dançantes, aquele velho piano de teclas gastas de tanto não ser tocadas. O homem, antes de pintar-se à luz, caminhava pelo piano; dó, ré, milhares de vezes, até o som alimentar os seus olhos infinitos de nada.

- Você pode voar, e ter olhos infinitos.
- Eu tenho, meus olhos são infinitos.
- Mas são infinitos de nada.
- E isso não quer dizer infinito?
- Mas eles podem ser infinitos de tristeza.
- Prefiro tê-los infinito de nada.

Quando enfim essa aquarela descoloriu, o homem dos olhos fundos descobriu que deixando seus olhos infinitos de tristeza, era a unica maneira de ter sido feliz. E a unica maneira tambem, daquela bela aquarela; não ter um dia perdido a cor.

2 comentários:

  1. acho que perdemos um pouquinho da nossa cor todos os dias se nos deixarmos ficar amarelados de tristeza.

    ResponderExcluir
  2. Entendo o homem das teclas dó-ré-mi. As vezes, o mais próximo que podemos chegar de nossos desejos, e juntamente a felicidade, é estarmos triste. Na verdade, prefiro ter todo tipo de sentimento barroco, do que ter meus olhos infinitos de nada. Eu prefiro olhos cheios de tristeza.

    ResponderExcluir