domingo, 3 de janeiro de 2010

Tudo estava como sempre ao amanhecer do meu próprio mundo, que não era nada além da minha própria rua. O cheiro de café recém nascido. A fila do pão dobrando um par de quadras. As crianças ao redor da vila, como se conhecessem todo o mundo.
Eu observava tudo do fundo da minha janela. O sol invadia meu quarto aos poucos, em fatias. Enquanto isso eu descia a escada sentado, com as mãos sujas de vento e não dava "bom dia" a ninguém. Tudo me era tão estranho. Eu sentava a mesa, e comia migalhas de fome, para poder logo sair de tudo.
Então eu colocava meus sapatos e ia até a porta, onde meus pés e meus passos me esperavam ansiosos de fuga. Eu subia a minha rua de cabeça baixa, chutando as pedras de giz nas construções. Assovios. Som de violino. Previsões do tempo por velhinhos. Eu escutava de tudo por onde eu passava. Bati palmas até elas me arderem a pele, como de costume. Logo a porta se abria. Ela me olhava com um sorriso aliviado e corria até mim com um vestido de cores verdes, eu nunca vou me esquecer dele. Passavamos o dia correndo, à descobrir cores.
Tudo acabou quando ela me disse:
- Descobrimos tantas coisas não é? Que cair dói. Que doer sara. Que cantar espanta (seus males ou as pessoas). Que morrer nasce. Que girar voa. Que chover banha.
- É verdade.
- Mas eu tenho que ir, me desculpa.
- Porque? Porque você tem que ir?
- Porque você me fez descobrir tambem o que é amor.


Para ler ouvindo: Iron & Wine - Flightless Bird

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